Atropelando os pilantras.

Quem conhece as músicas do Monster Bus percebe, nos shows, que nem todas as letras são cantadas ao vivo do mesmo modo como foram registradas em disco.

Isso é algo que aprendi com Bob Dylan – sendo Tangled up in Blue, com suas 3 versões diferentes lançadas em disco, entre 1984 e 1991, o maior símbolo da capacidade do Bardo de Minesotta alterar as letras de suas canções, sem perder o sentido original.

Eu sempre quis fazer isso, e calhou de fazê-lo em O Moralista, para a qual gravamos uma letra alternativa – alternate lyrics – com um punhado de palavras diferentes da versão original, sem perder a essência.

A arte é de Anderson Macedo.

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Um dia na ETE

(O making of de Dark Waters)

Quando eu era criança bem tenra, na longínqua década de 1970, eu morava no Criméia Oeste, um bairro da periferia de Goiânia.

Com a expansão imobiliária, é natural que o Criméia tenha se tornado um bairro “mais próximo” do Centro, com grande parte do que se espera em termos de infra-estrutura.

Mas nos anos 70, as coisas eram diversas: asfalto não existia, as ruas eram de terra, os postes de madeira, não havia cabeamento telefônico, e as quedas de energia duravam horas, às vezes mais de um dia.

Uma das coisas que mais me chamavam a atenção é que, no caminho de casa, fosse no ônibus da Viação Reunidas, que fazia a linha Criméia-Centro, ou no Ford Corcel de meu pai, passávamos por uma baixada onde hoje fica a Avenida Goiás Norte. No fundo do vale, fica o Córrego Botafogo, e antes dele a atual sub-estação Ferroviário das Centrais Elétricas do Estado – à época, muito mais singela, com torres modestas e uns poucos geradores responsáveis pelo abastecimento de energia a região norte da cidade.

O córrego em si já não era impoluto, havia alguns barracos de madeira construídos à sua margem, e certamente era na água que os moradores derramavam seu esgoto. Mas isso era de menos: a cidade era pequena, as famílias eram poucas.

O que realmente impressionava minha retina infantil era a montanha de laranjas podres que, vez ou outra, era vista às margens do manancial. A questão é que, não muito distante dali, na Rua 55, no chamado Bairro Popular, havia alguns depósitos de laranja – acho que alguns estão lá até hoje. E vários deles – senão todos – tinham o hábito de usar como lixo as margens do córrego.

Por mais de uma vez, eu vi o carroceiro se aproximar do cansado Botafogo, e despejar por lá sua carga indesejada. Aos olhos da criança, era especialmente perturbador o fato de que, resistentes ao mau cheiro, os moradores dos barracos se aproximavam do monte de frutas podres, e de lá retiravam, para seu próprio consumo, as menos comprometidas.

* * *

Saltemos, Leitora, para o ano de 2010.

Uma certa noite, durante um ensaio do Monster Bus, no estúdio República, conversávamos sobre as fortes chuvas que caíam em Goiânia, e sobre seu impacto na vida da cidade – aqui, quando chove, os córregos transbordam rapidamente, as ruas se alagam com imensa facilidade, e o caos não tarda a se instalar.

Ficamos por ali uns minutos, bebendo cerveja e falando sobre os leitos que cortam a cidade. Em verdade, o que determinou a construção da nova capital neste lugar foi justamente a quantidade de rios e córregos. Todavia, apenas alguns conseguimos identificar pelo nome: o Botafogo é aqui perto, acho que cai no Meia-Ponte, tem também o Anicuns e o Capim Puba, o Cascavel, o Areião e o Matinha…

Dali para a idéia de fazer uma música sobre as águas de Goiânia foi um pulo: águas escuras, sujas, poluídas, como as de qualquer grande cidade. Nascia, assim, Dark Waters.

* * *

Já no ensaio seguinte eu levei a letra da música pronta, e me comprometi a falar com um velho colega do curso de Engenharia, na UFG, que hoje é fiscal ambiental da Municipalidade. Meu plano, para fazer o videoclipe da música, era descermos de canoa o Meia-Ponte, o maior rio que corta Goiânia, para checar de perto a situaçao de suas águas.

Como dito acima, nos dias em que a música foi criada, chovia na cidade. Mas, obviamente, para descermos o Meia-Ponte, precisávamos aguardar a estiagem.

Assim, foi apenas no final de julho de 2011, que conseguimos colocar a canoa na água, o que se deu perto da ETE Hélio Seixo Brito, a maior estação de tratamento de esgoto de Goiânia.

A expedição durou pouco mais da metade de um domingo, e só foi possível com a inestimável ajuda do Adriano da Paixão, meu velho colega da faculdade de Engenharia, que fez o meio de campo com a ETE e também descolou a canoa com o Ivan Gouvêa – um cara que se formou comigo em Direito, mas que fazia dez anos que eu não via, e que eu nem sabia que era amigo do Adriano.

As imagens, como sempre, foram captadas pelo meu grande parceiro desde sempre, Ivanoel Mendes, também conhecido como “O Homem Grua”.

A edição – que é a alma do vídeo – foi feita, pela primeira vez, pelo Evandro Braga, um brother que conheci no estúdio Atitude, guitarrista da banda Casa Bizantia, e exímio operador do Final Cut Pro.

A trilha sonora é 100% rock goianiense: o próprio Casa, mais Mortuário, Shakemakers e Violins.

Não se trata, ainda, do videoclipe da música Dark Waters, mas apenas uma espécie de “making of”.

O resultado pode ser conferido aqui.

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O mundo será dos velhos.

Ou: Nicko McBrain.

O que aconteceu no dia de ontem, estimada Leitora, foi o seguinte: eu havia acabado de enviar minha declaração do imposto de renda, era o último dia de prazo, feriadão do dia do trabalho, primeiro de maio caía na terça, hoje é segunda.

Mando a declaração pela internet, troco de roupa, e já estou no carro, rumo à casa de minha mãe, onde pegarei meu filho de dez anos e meu irmão de quinze.

Vamos ao Flamboyant Shopping Center, comprar uma peça para o iPod da criança.

Chegando à mega-store, vejo nas prateleiras o novo CD do Iron Maiden, En Vivo!, gravado na cidade chilena de Santiago.

Quero lhe dizer o seguinte, Leitora: muito pouca novidade há neste disco. Tomo-o nas mãos, e certifico-me daquilo que já imaginava: muitas das músicas constantes no CD já foram gravadas inúmeras vezes.

The Trooper, Hallowed Be Thy Name, Fear of the Dark, The Number of the Beast.

Qualquer fã mais antigo do Iron Maiden tem no mínimo quinze versões destas músicas em casa, entre as dezenas já gravadas e lançadas. Mas, ainda assim, um disco do Iron Maiden é um disco do Iron Maiden.

Como diria um amigo que toca baixo numa banda de heavy metal from Goiânia: os caras do Iron Maiden são nossos amigos, se lançam um disco, vamos lá lhes dar uma força, a eles que já nos proporcionaram tantas alegrias.

Sim, Leitora: muitas alegrias.

Venha comigo até minha casa.

Saímos do shopping para seguir no carango rumo ao Setor Oeste. Lá chegando ouviremos o disco!

* * *

Putz: olha que louca esta foto do Nicko McBrain, o batera do Iron Maiden!

Eu sempre gostei muito do Nicko, desde que o ouvi pela primeira vez, ao comprar o Powerslave, em 1985, pouco depois do Rock in Rio.

Sento-me na poltrona do papai que tenho em meu quarto, e passo uns minutos viajando no foto – o som já rola solto na vitrola!

Conte comigo, Leitor roqueiro, quantas são as peças da bateria: um dois três quatro cinco seis sete tons, e dois surdos!

Que maravilha!

Pudera ele tirar tantos sons diferentes em seus variados grooves! Pudera eu ter ficado tão impactado com o que ele fez, no Live After Death, com as músicas originalmente tocadas pelo baterista Clive Burr, o primeiro baterista da banda.

Penso comigo: Caramba, o Nicko já deve estar com uns sessenta anos.

Sem tirar minhas nádegas da confortabilíssima poltrona do papai, vou à Wikipédia e confirmo a informação: parido em junho de 1952, o velhote está na bica de completar seis décadas!

E não se engane, Leitor infante: mesmo que tenha dez anos de idade, se você começar a tocar bateria hoje, pode ser que, aos sessenta seja uma máquina de precisão como o velho Nicko. Mas saiba que terá de se esforçar. E muito!

O que ele faz não é pra qualquer um!

O homem é uma máquina, busquei outro termo, não achei.

Uma máquina de corpo esguio, cabelos clareados pelo tempo, a testa cheia de rugas, e a antiga tatuagem do samurai no braço esquerdo – conhecida já, dos fãs mais erados do Iron Maiden.

* * *

Minha primeira bateria foi uma Sonor, a mesma marca que o Nicko usava, nos dias do Live After Death, em 1985.

Quanto aos pratos, acho que desde sempre ele toca com um kit Paiste Rude, uma série muito boa, de uma famosa marca alemã.

Vê esse prato bem acima de sua cabeça, na foto? Na posição perpendicular, em relação ao chão?

Ele se chama “condução” – ou ride, em inglês. A maioria dos bateras o coloca mais embaixo à direita.

O Nicko é foda: coloca o diabo do prato bem na sua cara, de modo a mostrar quem é que manda!

Outra coisa bacana: antigamente ele tocava com botas de couro bem fino, para o pé direito ficar mais livre na execução dos pivôs. Faz um tempo, porém, que o maluco só toca descalço!

Muito mais eu poderia dizer, mas é hora de me levantar e apertar o play, na face prateada do meu surrado CD player. Antes que me pergunte, Leitor, o controle remoto estragou, e ainda não comprei outro.

Quero ouvir mais uma vez as novas nuances que o sujeito coloca nos antigos clássicos do Maiden.

Se você, Leitor, tiver um disco do Iron da época do Nicko, sugiro que faça o mesmo: vá até o player e ponha-o para rolar!

A ele, Nicko McBrain, o mestre das baquetas, eu dedico esta crônica fajuta. O cara mexe com minha cabeça desde 1984, sua influência foi fundamental para que 23 anos depois, em 2007, eu me sentasse atrás de um kit e me arriscasse nos tambores do Monster Bus!

Que o Nicko nos alegre por mais uns 40 anos!

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Dupla de Quadrúpedes

Estamos no Bosque dos Buritis, Leitora.

Moro aqui perto, então é para cá que sempre lhe trago, nestas minhas crônicas vagabundas.

Caminho em direção à entrada da Rua 1, pretendo sair, depois de passar pelo lago da fonte, pela Avenida Chateaubriand, no intuito de tomar a Praça Cívica.

Ao passar pela escultura geométrica em cujo interior há porções de terra de diversos países, avisto a figura ruminântica do camelo Jamal, o animal mais transado de todo o universo.

Curiosamente, não está sozinho o camelídeo – há, a seu lado, um outro semovente!

O que será isto?, penso com meus botões. Dois quadrúpedes em pleno bosque, no centro da Metrópole?

Aperto o passo, para conferir mais de pertinho a cena.

Pois não é que se trata, estimada Leitora, de uma das vacas da exposição Cow Parade, que colorem Goiânia?

Aproximo-me da dupla de quadrúpedes, quando percebemos, com o canto do olho direito, nosso herói das Arábias: Ulemá!, eu lhe digo, Meu bom amigo!, ele retribui, Que prazer encontrá-lo por aqui, aceita uma pipoca?

Conversamos por alguns minutos, e o tema de nosso debate é justamente a exposição das simpáticas vaquinhas, que se espalham por diversos pontos da urbe goianiense, ocupando a cidade ao modo de um exército artístico.

Eu sei que tem havido todo um debate sobre a presença das vacas pelas ruas de Goiânia. Muitas críticas têm sido feitas, alguns acham que o milhão e meio de reais que a Prefeitura pôs no evento seriam melhor empregados em educação ou saúde, outros tantos reputam que a classe artística não foi prestigiada, e toda a grana correu fácil foi para a empresa que organizou a mostra.

Mas confesso, Leitora, que sou um jumento, quando se trata política. Aliás, para fazer justiça a toda minha estultice, talvez esta crônica devesse se chamar Trio de Quadrúpedes, tamanha é a minha dificuldade em compreender os assuntos da pólis.

Diversamente, nosso amigo Ulemá.

Ele parece se interessar pelos temas da política, é ele que me convence que a exposição é um barato.

E eu poderia dizer que ele usou para isso este ou aquele argumento, porque parece ser um bom argumentador o Árabe, mas não foi assim que as coisas se deram.

O que ele fez foi me chamar a atenção para um fato peculiar: enquanto estávamos conversando, eu e o Ulemá, e a Vaca e o camelo Jamal, surgiu do nada um popular, classe média bem baixa, alguma coisa me dizia que ele trabalhava na construção civil, pedreiro, algo do estilo. Talvez por estar a bordo de uma bicicleta bem velha, e pelas roupas surradas, típicas de quem lida diariamente com o cimento e a argamassa.

Tira do bolso um pacote pequeno, embrulhado num guardanapo, desdobra lentamente o papel, e vemos um aparelho de celular já antigo.

Ele fotografa a vaca, sorri para nós e nos diz De todas, esta é a que eu mais gosto!, monta na bicicleta, e vai-se embora.

Torno a dizê-lo: sou uma anta em assuntos políticos, mas o Ulemá me fez ver que o gesto daquele homem de classe baixa, que se deixa impactar pelas diversas vacas espalhadas pela cidade, aquele completo desconhecido que, pela arte, se aproxima de seus semelhantes e a nós nos acena, no que temos de mais humano, isso tudo justifica, magistralmente, a exposição.

Allah seja louvado! É bom que o Poder Público, em Goiânia, patrocine a todos nós esta experiência!, ele diz, e a mim só resta concordar.

Quanto à vaca que ora observamos, permita-me descrevê-la: criada pelo artista Aiog, provavelmente um anagrama para Goia, e seu nome é Cow City.

Gosto particularmente da espessa cabeleira metida por sob o boné, e do uso das latas de spray para simbolizar os prédios – trata-se, afinal, da Cidade da Vaca, onde muitos de nós residimos, no aglomerado urbano.

Por sua vez, o camelo Jamal parece ter curtido o estilo hip hop da vaca, tendo até lhe convidado para, um dia, dançar seu famoso funk.

Fico feliz por gozar da amizade do Ulemá, e também eu tiro do bolso da calça o celular, para fazer o registro da vaca.

Ressalvo apenas que, tão agradável foi a conversa, que sequer pensei em bater a foto enquanto estávamos todos juntos.

Quando me lembrei de usar a câmera do smartphone, o relógio de pulso da vaca marcava exatamente nove horas, e já estavam nos ares o Ulemá e o camelo Jamal, a bordo do tapete voador.

Towards Salam, Towards Salam, the Ulemah is gonna fly!

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The Melting Pot (17)

Relato de uma viagem oficial a San Diego, por um burocrata federal nascido em Goiânia.

17. Bush’s Wall (O muro de Bush).

Enquanto a Leitora se refestela no mundo das compras, vou à praça de alimentação. Há muitas opções, e escolho uma lanchonete mexicana, onde sou muito bem atendido por uma moça gorducha, da pele clara e olhos puxados, que fala um espanhol muito escorreito.

Você é mexicana?, pergunto-lhe, Não, sou japonesa, ela diz, com um pouco de coreana, E você?, ela me pergunta. De onde você acha que eu sou?, retruco, Persa?, ela diz.

Acho engraçado o comentário da moça japonesa, seu rosto é bastante redondo e cheio de sardas, Ela deve ter me confundido com o Ulemá, penso com meus botões.

Pego minha refeição, e tomo assento num balcão cuja vista dá para o passeio central do shopping center. Presto atenção numa espécie de jukebox ultramoderno, que funciona do seguinte modo: em vez de o ouvinte colocar uma moeda e escolher uma certa música – que antes era num compacto de 7 polegadas, depois se tornou uma espécie de cartucho -, neste é possível escolher um videoclipe, a partir de uma mensagem de texto enviada de seu celular.

Nos muito monitores de LCD espalhados pela praça de alimentação, para escolher um vídeo musical, basta você enviar, a partir de seu celular, uma mensagem de texto – sem custo! – para tal número, de acordo com sua predileção, e logo o clipe será executado para todos nós.

Gosto dessas tecnologias, e passo uns minutos observando a novidade. As músicas, todavia, são tão modernas quanto o jukebox, não conheça nenhum desses artistas – abundam carrões, coreografias e roupas prateadas – e acabo por me desligar.

Saio da lanchonete, e decido caminhar pelas dependências do shopping, sem me deter em nenhuma das muitas lojas – não quero gastar meus caraminguás, e sei que, dentro de cada uma, as tentadoras ofertas podem ser mais fortes que os escorpiões em meu bolso!

O problema é que nestes shopping centers chamados outlets, a arquitetura é um pouco diferente daquelas a que estamos acostumados, em Goiânia e outras capitais do Brasil: aqui, há as lojas, e há uma área externa a céu aberto – é como se fosse uma galeria bem grande, não exatamente um shopping center fechado, inteiramente climatizado, como os brazucas.

E hoje faz frio, Leitora.

Saio andando a passos largos, de modo a aquecer um pouco o sangue nas pernas e na região dos braços. Preciso me movimentar.

Cruzo toda a extensão do complexo do outlet, a distância não é tão grande, e logo chegamos ao estacionamento.

Há pouco carros aqui nesta parte dos fundos, e o que mais me chama a atenção é a cerca que corre num pedaço a perder de vista, na fronteira entre os EUA e o México.

Aliás, mais que uma cerca, trata-se de um verdadeiro muro.

Já era possível vê-lo no caminho, quando descemos do trolley e começamos a subir a passarela, à nossa esquerda a imensa bandeira mexicana, e atrás dela as colinas empoeiradas de Tijuana.

Mas aqui, no estacionamento do Las Americas, a coisa se mostra muito mais próxima.

Levo à mão direita ao bolso da jaqueta, saco de lá meu iPhone e tiro a foto abaixo.

Aquela coisinha preta, no canto inferior esquerdo do retrato, é o teto de uma viatura do Border Patrol, ou seja, a patrulha da fronteira.

Há um enorme fluxo de pessoas e carros entre San Diego e Tijuana, o que foi possível perceber quando subimos a passarela. E mesmo aqui no shopping, é muito grande a presença de mexicanos, tanto de posse de seus cartões de crédito, quanto detrás dos balcões, hablando español com quantos estejam aqui para comprar.

Soa incompreensível, portanto, a existência em si mesma do muro, uma verdadeira barrreira segregadora de duas comunidades que deveriam se integrar, muito mais que se opor.   

Tiro a foto e volto ao encontro das colegas.

Carrego algumas de suas sacolas, chego mesmo a comprar algumas coisas para meus filhos, e estamos novamente no trolley, depois de passar, mais uma vez, pela passarela perto da fronteira, desta vez a bandeira mexicana fica à nossa esquerda.

Por uns dias, sigo pensando naquele muro, a imagem vai e volta, penso em Berlin, onde nunca estive, na Guerra Fria, mas, acima de tudo, eu penso no disco do Pink Floyd, The Wall.

Um certo dia, o Professor Golden – falarei dele mais tarde – nos diz, durante uma de suas aulas: After 9/11, we have the wall between San Diego and Tijuana, Bush’s Wall.

Não me lembro exatamente sobre o que nos falava o professor, mas a frase ficou gravada em minha memória. Ela significa que o muro foi construído após os atentados terroristas às Torres Gêmeas.

Indago-me se seria mesmo necessário, para conter eventuais ameaças terroristas creditadas a um país distante, edificar uma barreira entre você e um seu vizinho.

Eu não saberia dizer.

Só sei que achei estranho o tal muro – deselegante, indigesto.

Mas, já que citamos o ilustre professor Golden, voltemos à escola de direito Thomas Jefferson: a Sra Mc Ewen  acaba de nos chamar a todos para a sala de aula – você não quererá chegar atrasada, Leitora!

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The Melting Pot (15 & 16)

Relato de uma viagem oficial a San Diego, por um burocrata federal nascido em Goiânia.

15. Mero recurso literário.

Sabe, Leitora?

Creio que ainda temos um tempinho antes de sermos chamados à sala de aula.

Aproveitemos esses poucos minutos, para lançar mão de um recurso literário: vamos pular daqui do terraço, de modo a entrarmos num dos vagões do trolley que corre lá embaixo.

Confie em mim, tome minha mão – eu sei o que estou fazendo.

Quando nossos pés tocarem o asfalto lá embaixo, será ontem, domingo, e logo estaremos sentados no interior do vagão vermelho, sob nós a linha férrea.

Você está pronta?

Um dó lá si, já!

16. No trem até a fronteira. 

Domingo, nosso segundo dia em San Diego.

Passa do meio-dia, sentimos um pouco de frio, ainda não estamos devidamente aclimatados ao inverno destas praias do Oceano Pacífico.

Em nossa companhia, as colegas Rafaela e Viviane, que nos convidaram para ir a um outlet, um desses shopping centers que vendem marcas bacanosas por preços mais em conta.

A viagem no trolley dura pouco mais de meia hora.

O trolley, eu já o disse, é  uma espécie de trem, um metrô de superfície – elétrico, com sistema de cabeamento. Ao fim do capítulo, há um link, caso o Leitor se interesse por conhecer mais sobre as composições.

Há poucas pessoas a bordo, a maioria mexicanos, famílias que vão ao passeio dominical, e trabalhadores voltando da faina. Isto acontece porque a última parada do trem fica no lado americano da fronteira com o México.

À medida que nos afastamos do Centro de San Diego, a paisagem vai mudando: a zona comercial nas proximidades do Gaslamp Quarter se transforma numa área mais residencial, e depois em periferia.

O trolley segue viagem, pessoas entram, outra saem, nunca mais as veremos, enquanto a paisagem pela janela é líquida como uma lembrança: Barrio Logan, Palomar Street, Beyer Boulevard. As estações se sucedem, o maquinista anuncia seus nomes pelo sistema de voz, e vão mudando as características dos lugares, num degradê urbano.

Chegamos, Leitora: This is the last stop, all passengers must get off the train!, ouvimos a voz metálica pelos alto-falantes sobre nossas cabeças.

Todos descemos, e vou ter com um guarda local, seu uniforme é azul muito escuro, mais adiante uma viatura típica de um filme de Hollywood.

Aproximo-me e faço a pergunta: Sir, how can we get to the mall, the outlet?, querendo saber como faríamos para chegar ao shopping barateiro.

O guarda é afável, e nos indica o caminho de modo preciso: há uma ponte, uma espécie de passarela, somente para pedestres. Vamos cruzá-la e seguir adiante, as placas nos levarão até lá.

Subimos a ponte, olhe à sua esquerda, Leitora, a imensa bandeira vermelha, branca e verde não deixa margem ao engano: bem ao lado está o México, a banda pobre e humilhada de uma das fronteiras mais célebres – e tensas – do planeta Terra.

Caminhamos por mais quinze minutos, e chegamos a nosso destino.

O nome do shopping é Las Americas, um nome espanhol, como Los Angeles, San Ysidro, e muitas outras coisas aqui na Califórnia.

Mas as lojas têm nomes mais “internacionais”, por assim dizer: Gap, Tommy, Adidas. Nike, Levi’s e New Balance. Victoria’s Secret, Puma e Lacoste.

Se vc quiser gastar seus dólares, aqui é uma boa pedida!

Quanto a mim, ainda é o começo da viagem, pouco dinheiro eu trouxe, e prefiro ser mais cauteloso. Vim basicamente para conhecer o lugar, pegar o trem, e carregar as sacolas da Leitora.

http://www.sdmts.com/Trolley/documents/SDTLRV.pdf

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The Melting Pot (14)

Relato de uma viagem oficial a San Diego, por um burocrata federal nascido em Goiânia.

14. No terraço.

Ao abrirmos a porta de vidro, desfralda-se perante nossos olhos a urbe californiana.

Vemos muitos prédios, não muito altos, por isto que San Diego não é exatamente uma cidade vertical. À nossa esquerda, a linha do trolley – uma espécie de metrô de superfície – que liga Old Town, a cidade velha, a Tijuana, na fronteira com o México.

Não espere, Leitora, ver árvores de um verde escuro e brilhante como as que veria em Goiânia. Não são todos os lugares em que as folhas têm o mesmo tom. Não sou botânico, mas creio que seja algo ligado ao calor, à umidade do ar, e também à incidência solar.

Nesta manhã, em San Diego, o clima é frio, e as árvores lá embaixo trazem as folhas num tom verde pálido, nem muito claro, nem muito escuro, longe da exuberância das árvores da região Amazônica, isto é uma certeza.

Lá embaixo, a cidade se estende, e nem a linha do trolley, nem os motores dos carros se fazem ouvidos daqui de onde estamos, no oitavo andar da TJSL, a Escola de Direito Thomas Jefferson.

O que se ouve, uma ou outra vez em meia hora, é um avião singrando os céus em direção ao aeroporto internacional, mais de um eu já vi de uma companhia regional, as letras SW na cauda vermelha, de SouthWest, sudoeste, posição da California, na rosa-dos-ventos do país.

À nossa direita, mais ao fundo da paisagem, um guindaste imenso se equilibra, amarelo, vigiando o esqueleto em construção de um arranha-céu. Já são mais de vinte andares, bem mais que a média da cidade. Também aqui, a pressão imobiliária valoriza a terra e otimiza sua ocupação, os edifícios são cada vez mais altos.

Apesar do vento um pouco frio, a manhã é bonita e agradável.

Ao lado do guindaste, tremula, silenciosa, uma bandeira norte-americana.

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The Melting Pot (13)

Relato de uma viagem oficial a San Diego, por um burocrata federal nascido em Goiânia.

13. Desjejum.

Permita-me, Leitora, acender uma vela em sua memória.

Lembra-se, quando saímos do hotel e começamos a caminhar em direção à Escola Thomas Jefferson, que eu me limitei a comer uma maçã? Acaso não se recorda de ter recusado o pedaço que lhe ofereci?

Pois lhe direi agora, porque comi nada além de uma fruta: é que, conforme a programação que nos passaram, o primeiro evento do curso não será uma aula, mas um breakfast, ou seja, um desjejum!

Não sei se você sabe, mas o termo desjejum significa café-da-manhã, e tem a mesma raiz em inglês e português: des-jejum é a primeira refeição do dia, momento em que quebramos o jejum imposto pela noite de sono. E em inglês, o verbo fast significa jejuar, como na frase Muslims fast during Ramadam.

O verbo break, aprendemos com Michael Jackson, significa quebrar, e break-fast  é, então, “quebrar o jejum”, como no vernáculo: des-jejum.

Mas, enfim, nem sei por que lhe conto essas coisas.

Tornemos à narrativa: saímos do elevador, no oitavo andar do prédio, e já estamos diante do farto buffet montado a nosso dispor.

Há leite, café e suco de laranja. Há muffins e bagels: o primeiro, uma espécie de bolo macio e muito doce para minhas papilas, o último, uma espécie de pão em formato de roda, com um furo no meio. Há também ovos mexidos e bacon.

Tomo o café e o suco, como dois bagels e uma fatia de bacon, dispenso todo o resto.

Fico por ali uns minutos, é hora de nos misturarmos um pouco. Vamos ter com a colega Regina, de São Paulo, que nos apresenta a Celine, de Belo Horizonte. Falamos com o Ricardo, ele vem de Teresina, mas nasceu em Piri-Piri, interior do Piauí. A Kátia já conhecíamos por email, ela vem de Salvador, embora descenda dos japoneses, seu sobrenome é o mesmo do aeroporto de Tóquio.

É um momento bem descontraído, estamos todos abastecidos e contentes por estarmos aqui na Califórnia – você consegue senti-lo, Leitora?

Aquela porta, bem ao fundo do salão, desde que cheguei estou de olho nela: ela dá lá para fora, para uma espécie de terraço. Aqui dentro, com tantas bocas falando e mastigando, o ar está um pouco abafado.

Vamos lá fora: acho que é boa a vista da cidade!

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The Melting Pot (12)

Relato de uma viagem oficial a San Diego, por um burocrata federal nascido em Goiânia.

12. Se fosse chão batido,

o que ouviríamos agora seria o chiq-chiq dos calçados deslizando pelo piso, por isto que são muitos os pares de sapatos que acedem ao hall de entrada da Thomas Jefferson School of Law – doravante chamada apenas TJSL.

Mas de chão batido não se trata.

O assoalho sob nossos pés é um tipo de mármore claro ou granito, talvez um sintético, que não produz maiores ruídos enquanto sobre ele deslizamos.

As damas chegam em profusão, e quase todas calçam longas botas de couro, algumas são pretas, outras caramelo, há também as de um tom mais café.

Os varões, por sua vez, são mais ortodoxos: abundam os sapatos sociais pretos de bico fino, fora um ou outro colega mais ousado, trajando um sapatênis branco, com faixas azul e vermelha.

Lembra-se da porta de vidro do capítulo anterior, Leitora? A cada minuto que lançamos sobre ela nossa mira, é mais uma pessoa que entra, algumas chegam em grupos de dois, três ou até quatro!

Rapidamente, já somos mais de 30 na sala, até que ouvimos a voz da autoridade.

É a sra. McEwen – ela fala em português, e nos chama para iniciarmos os trabalhos.

Vamos começar, Leitora – agora é que o bicho pega!

São poucas as orientações – ou ao menos são poucas as palavras que eu ouço, pois estou um tanto distante. Daqui de onde estou, tudo o que enxergo são alguns grupos que se deslocam a uma das seis portas prateadas diante de nós, três de cada lado.

Vê aquele elevador? O do meio, à nossa direita? É nele que vamos.

Going up!, diz a voz metálica da gravação que substitui a ascensorista.

Dentro da cápsula, alguém aperta um botão, e começamos a subir.

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The Melting Pot (11)

Relato de uma viagem oficial a San Diego, por um burocrata federal nascido em Goiânia.

11. Na escola:

Finalmente, chegamos. Era realmente mais perto que imaginávamos.

Esta porta, Leitora, eu acho que abre para fora: “Pull” não é puxar? Este é um dos falsos cognatos que sempre me confundem. Sim, “push” é empurrar, “pull” é puxar.

Puxamos a porta, e penetramos o hall de entrada da Thomas Jefferson School of Law.

Uai, não tem ninguém aqui!

Será que estamos atrasados? Acaso nosso relógio parou?

Vamos até o recepcionista, entretido na leitura de um jornal, por trás de um balcão mais ao fundo, perto dos elevadores. À nossa esquerda, há uma escada um pouco encaracolada.

Estamos em San Diego há dois dias, já conversamos com taxistas, garçonetes, pessoas na rua e gente no hotel. Mas, na Thomas Jefferson, é diferente. Aqui está nossa obrigação diária. Foi para este lugar que nos trouxe a Escola da Advocacia Geral da União, com o seu dinheiro, Leitora, o seu dinheiro!

Convém aprumarmos o inglês, daqui a pouco enfrentaremos os professores.

Formulamos a frase, primeiro mentalmente, em português, e vamos até o recepcionista, perguntar onde está a missão brasileira, ele certamente há de saber:

Excuse, me sir – do you you know where the Brazilian mission is?

Hmm, ele murmura, e eu percebo que fomos, realmente, os primeiros a chegar. O recepcionista parece não saber nada a respeito do grupo de brasileiros cuja programação deveria se iniciar dentro de poucos minutos.

Brazilian mission?, ele indaga, para logo depois completar, com a frase que eu ora traduzo: Na verdade, você acaba de me contar sobre isso. Eu não tinha informação nenhuma a respeito.

Neste ponto, abro um parêntese, para antecipar um tema sobre o qual tornarei a tratar: como é possível atestar por nosso diálogo com o homem detrás do balcão, o curso na Thomas Jefferson School of Law, na cidade de San Diego, não passará indene de erros e lapsos de comunicação – este é apenas o primeiro. Outros virão.

Mas nada que embace o brilho da experiência – faço questão de deixar isso claro, desde agora. Fica comigo, Leitora, e saberás mais.

Ok, eu digo ao recepcionista, vou esperar ali naquele sofá.

All rigth, sir, fique à vontade.

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