Relato de uma viagem oficial a San Diego, por um burocrata federal nascido em Goiânia.
17. Bush’s Wall (O muro de Bush).
Enquanto a Leitora se refestela no mundo das compras, vou à praça de alimentação. Há muitas opções, e escolho uma lanchonete mexicana, onde sou muito bem atendido por uma moça gorducha, da pele clara e olhos puxados, que fala um espanhol muito escorreito.
Você é mexicana?, pergunto-lhe, Não, sou japonesa, ela diz, com um pouco de coreana, E você?, ela me pergunta. De onde você acha que eu sou?, retruco, Persa?, ela diz.
Acho engraçado o comentário da moça japonesa, seu rosto é bastante redondo e cheio de sardas, Ela deve ter me confundido com o Ulemá, penso com meus botões.
Pego minha refeição, e tomo assento num balcão cuja vista dá para o passeio central do shopping center. Presto atenção numa espécie de jukebox ultramoderno, que funciona do seguinte modo: em vez de o ouvinte colocar uma moeda e escolher uma certa música – que antes era num compacto de 7 polegadas, depois se tornou uma espécie de cartucho -, neste é possível escolher um videoclipe, a partir de uma mensagem de texto enviada de seu celular.
Nos muito monitores de LCD espalhados pela praça de alimentação, para escolher um vídeo musical, basta você enviar, a partir de seu celular, uma mensagem de texto – sem custo! – para tal número, de acordo com sua predileção, e logo o clipe será executado para todos nós.
Gosto dessas tecnologias, e passo uns minutos observando a novidade. As músicas, todavia, são tão modernas quanto o jukebox, não conheça nenhum desses artistas – abundam carrões, coreografias e roupas prateadas – e acabo por me desligar.
Saio da lanchonete, e decido caminhar pelas dependências do shopping, sem me deter em nenhuma das muitas lojas – não quero gastar meus caraminguás, e sei que, dentro de cada uma, as tentadoras ofertas podem ser mais fortes que os escorpiões em meu bolso!
O problema é que nestes shopping centers chamados outlets, a arquitetura é um pouco diferente daquelas a que estamos acostumados, em Goiânia e outras capitais do Brasil: aqui, há as lojas, e há uma área externa a céu aberto – é como se fosse uma galeria bem grande, não exatamente um shopping center fechado, inteiramente climatizado, como os brazucas.
E hoje faz frio, Leitora.
Saio andando a passos largos, de modo a aquecer um pouco o sangue nas pernas e na região dos braços. Preciso me movimentar.
Cruzo toda a extensão do complexo do outlet, a distância não é tão grande, e logo chegamos ao estacionamento.
Há pouco carros aqui nesta parte dos fundos, e o que mais me chama a atenção é a cerca que corre num pedaço a perder de vista, na fronteira entre os EUA e o México.
Aliás, mais que uma cerca, trata-se de um verdadeiro muro.
Já era possível vê-lo no caminho, quando descemos do trolley e começamos a subir a passarela, à nossa esquerda a imensa bandeira mexicana, e atrás dela as colinas empoeiradas de Tijuana.
Mas aqui, no estacionamento do Las Americas, a coisa se mostra muito mais próxima.
Levo à mão direita ao bolso da jaqueta, saco de lá meu iPhone e tiro a foto abaixo.
Aquela coisinha preta, no canto inferior esquerdo do retrato, é o teto de uma viatura do Border Patrol, ou seja, a patrulha da fronteira.
Há um enorme fluxo de pessoas e carros entre San Diego e Tijuana, o que foi possível perceber quando subimos a passarela. E mesmo aqui no shopping, é muito grande a presença de mexicanos, tanto de posse de seus cartões de crédito, quanto detrás dos balcões, hablando español com quantos estejam aqui para comprar.
Soa incompreensível, portanto, a existência em si mesma do muro, uma verdadeira barrreira segregadora de duas comunidades que deveriam se integrar, muito mais que se opor.
Tiro a foto e volto ao encontro das colegas.
Carrego algumas de suas sacolas, chego mesmo a comprar algumas coisas para meus filhos, e estamos novamente no trolley, depois de passar, mais uma vez, pela passarela perto da fronteira, desta vez a bandeira mexicana fica à nossa esquerda.
Por uns dias, sigo pensando naquele muro, a imagem vai e volta, penso em Berlin, onde nunca estive, na Guerra Fria, mas, acima de tudo, eu penso no disco do Pink Floyd, The Wall.
Um certo dia, o Professor Golden – falarei dele mais tarde – nos diz, durante uma de suas aulas: After 9/11, we have the wall between San Diego and Tijuana, Bush’s Wall.
Não me lembro exatamente sobre o que nos falava o professor, mas a frase ficou gravada em minha memória. Ela significa que o muro foi construído após os atentados terroristas às Torres Gêmeas.
Indago-me se seria mesmo necessário, para conter eventuais ameaças terroristas creditadas a um país distante, edificar uma barreira entre você e um seu vizinho.
Eu não saberia dizer.
Só sei que achei estranho o tal muro – deselegante, indigesto.
Mas, já que citamos o ilustre professor Golden, voltemos à escola de direito Thomas Jefferson: a Sra Mc Ewen acaba de nos chamar a todos para a sala de aula – você não quererá chegar atrasada, Leitora!
